Órfãos da Unimed Paulistana ganham plano de saúde caro e reduzido

JULIANA GRAGNANI
DE SÃO PAULO

Lucas, um bebê de um ano e cinco meses, nasceu com a síndrome femorofacial, uma rara condição que provoca má-formação dos ossos da coxa e do rosto. Agora, seu tratamento na AACD (Associação de Assistência à Criança Deficiente), em São Paulo, poderá ser suspenso.

Ele e sua mãe, a gerente Viviane Santos Roque, 33, fazem parte das 744 mil pessoas no país com planos de saúde da Unimed Paulistana.

Sem condições financeiras para cumprir seus contratos, a empresa foi obrigada pela ANS (Agência Nacional de Saúde Suplementar), no mês passado, a entregar a carteira de clientes a outros gestores.

Parte dos clientes da Unimed Paulistana, cerca de 444 mil com planos coletivos ou de grandes empresas, fará a transferência por conta própria para outras operadoras, com negociações feitas diretamente entre empresas.

Os outros 300 mil clientes (de planos individuais, familiares ou microempresas) poderão migrar para planos de três operadoras do mesmo sistema -Central Nacional Unimed, Unimed Fesp e Unimed Seguros.

Segundo acordo encabeçado pela ANS, esses clientes podem se mudar para esses planos sem cumprir carência -prazo para utilizar o serviço após a contratação. As três elaboraram uma só tabela de preços para os novos clientes.

O plano de Lucas custava R$ 308,60 na Unimed Paulistana e era o melhor para a sua faixa etária. 'Mesmo o melhor plano oferecido agora não entrega metade do plano anterior', afirma a mãe dele, Viviane Roque.

O plano com mais vantagens oferecido pelas três novas operadoras custa R$ 294,48 para pessoas com até 18 anos. É mais barato do que o da Unimed Paulistana, mas a rede credenciada é bem menor: há um quarto dos hospitais e metade dos laboratórios oferecidos pela antiga operadora, sem atendimento, por exemplo, na AACD.

PREÇOS

Além de uma menor rede de atendimento, clientes mais antigos reclamam dos preços das novas operadoras.

O empresário Luiz Oliveira, 37, pagava, para ele, sua mulher e seu filho, um total de R$ 709, em um plano empresarial. 'Por um preço muito maior, me oferecem um plano com pouquíssimos hospitais e laboratórios, nenhum próximo do meu trabalho', reclama Oliveira.

Os planos mais próximos ao atual totalizariam R$ 1.195,38, valor 68% maior ao que paga atualmente.

'Não é o momento. Estamos contendo gastos, em meio a dificuldades financeiras. Vou gastar mais, e vão reduzir o atendimento.'

O preço dobrará para o casal Manoel Joaquim Sebastião, 82, e Maria Alcina Sebastião, 77. Hoje, cada um paga R$ 620 em um dos planos básicos da Unimed Paulistana para sua faixa etária. Nos novos planos, pagariam R$ 1.254,61 cada.

A ANS diz que 'as condições serão diversas, pois há casos em que os consumidores se manterão nos mesmos patamares de preço, alguns diminuirão e outros terão os valores aumentados'.

A agência ressalta que os valores da tabela já têm 25% de desconto em relação ao preço normal que praticariam. Já a Unimed Paulistana afirmou que 'os valores são ofertados pelas outras Unimeds'. 'Não temos envolvimento com esses valores.'

REDE MENOR DE HOSPITAIS

Os clientes 'órfãos' da Unimed Paulistana terão menos hospitais e laboratórios à disposição nos novos planos oferecidos a eles após a empresa ter sido obrigada a repassar sua carteira de clientes a outras operadoras.

A rede de atendimento oferecida pelas operadoras Central Nacional Unimed, Unimed Fesp e Unimed Seguros é composta por menos hospitais e laboratórios que a antiga da Unimed Paulistana.

O plano mais básico da operadora em crise, por exemplo, tinha 65 hospitais, enquanto as novas operadoras oferecem menos de um terço disso, 18 hospitais. Eram 18 laboratórios disponíveis na Unimed Paulistana e seis nas novas empresas.

Já o melhor plano da Unimed Paulistana dava direito a uma rede de 82 hospitais e 21 laboratórios de ponta, como Sírio Libanês e Oswaldo Cruz, ante 20 hospitais, como o Bandeirantes, e 11 laboratórios disponíveis agora.

'Essa rede de hospitais deles é uma vergonha', diz o ex-motoboy Ernane Pastore, 47, que pagava R$ 585,68 para ele e a mulher, com direito a internação em apartamento. Agora, o casal deverá aderir ao plano mais barato para a sua faixa etária por R$ 666,40, sem apartamento.

Para a advogada Maria Stella Gregori, ex-diretora da ANS que atualmente dá aula de direito do consumidor na PUC, essa configuração não é a ideal, mas é a melhor saída. 'Se uma empresa quebrou e existe a possibilidade de outra empresa absorver esses consumidores, muitos deles idosos, acho que é bom negócio. Se não, onde iam arrumar um plano?', questiona.

'Os jovens e sadios o mercado absorve e oferece carência zero. Mas as operadoras não têm interesse em quem é idoso e em quem é doente.'

Consumidores que se sentirem lesados devem procurar a Justiça, por meio da Defensoria Pública, de um advogado particular ou do juizado de pequenas causas, com cópia do contrato, carteirinha e comprovante de pagamento, diz a advogada especializada em direito à saúde Renata Vilhena


Categoria: Notícia

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